Por esses dias, uma inquietação me fez perder o sono e o pior, me levou os sonhos também. E já que os planos para o futuro pareciam ter se apagado, assim do nada, eu fui buscar lá trás o motivo dessa formigação que tanto me incomodava. Revirei o meu baú, baguncei minha memória e fui parar numa rua, mas não numa via pública qualquer. A Arsênio Ferreira de Carvalho foi o palco principal da minha infância e de uma geração de amigos que acabou distanciada pelos anos. Ali, começamos a vida apenas como uma brincadeira.
No pega-pega, aprendemos a correr para alcançar o que buscávamos. A corda nos ensinou a pular os obstáculos do dia a dia e a salada mista aproximou os meninos e meninas. Vieram os apelidos, os conflitos. A turma se dividiu entre os muito loucos e os caretas, em pequeno número. Aí, entendemos bem as diferenças, filosofias, personalidades. Ainda que os pensamentos fossem tão distintos, o respeito sempre falou mais alto.
Alto como o som das vozes de nossos pais que, depois do esconde esconde, descobriam alguma arte revolucionária daqueles pentelhos. Os castigos, vez ou outra, deixaram claro que os erros tem consequências e que impunidade é um erro. Éramos um grande time. Os canarinhos, jovens, unidos pela bola, pela rua, pela amizade, pela vida.
Passávamos horas e horas juntos. Na casa de um, de outro, na frente do vídeo game, em cima da árvore, caminhando “sem lenço nem documento”. Sempre acompanhados pela felicidade. Só que devagar o futuro se encarregou de nos encaminhar separadamente. Escola, faculdade, emprego, nos víamos menos e cumpríamos mais nossos deveres, responsabilidades. Crescemos cheios de lembranças.
Nesse tempo, alguns dos rostos da rua foram desaparecendo. Um dos caçulas do grupo, vidrado em futebol, foi convocado pelos anjos. A senhora do jogo do bicho não está mais lá na esquina, os geladinhos que adoçaram a nossa infância também. O menino apelidado de “Tantão” viajou para o céu, junto com os dois senhores Franciscos da vizinhança. O sorriso da nossa doce Cláudia não pode mais ser visto, somente recordado e, atualmente, a imagem dos amigos na rua é rara como ganhar na loteria. Uns casaram, outros como eu se mudaram. Já na rua, pouca coisa mudou. Ainda posso sentir o cheiro, ouvir os risos, ver o meu eu criança correndo de um lado para o outro sem pressa de chegar onde cheguei, com toda vitalidade do mundo, sem o peso da responsabilidade, sem a preocupação de ter que trabalhar para comer.
Éramos invencíveis até que o tempo venceu os nossos laços. Vieram novos amigos, formamos outros grupos, só que a medida em que os cabelos brancos vão tomando conta da minha cabeça, mais falta eu sinto da nossa “linda juventude”. Hoje, uma nova geração tenta substituir o espaço que um dia foi nosso. A rua era a extensão de nossas casas, um lugar cheio de energia. E sem querer ser protecionista, fomos incrivelmente maiores, cerca de vinte apelidos que incomodavam um ao outro. Bizorrão, Fusquinha, Gudu da lua, Lucas Boy, Alemão, Dé, Derson, Xingu, Banguelo, Dadá, Mel, Xitão, Breguê, Chorinho, Cabeça, Joãozinho, Lili, Eli, Elaine e Juliardy, meu apelido.
Antes eu odiava ser chamado assim, hoje, eu rezo para ouvir essa palavra que considero mágica. Ela é a conexão com o meu passado, uma forma de trazer meus amigos de volta para o presente, de ressuscitar o elo perdido. Depois de duas décadas, com certeza estamos mais enrugados, com mais cabelos brancos, menos disposição e não fazemos tantas travessuras. Mas sei que quando nos cruzarmos por aí, nossos olhos vão enxergar aquelas mesmas crianças. Meninos e meninas que compartilharam a melhor parte de suas histórias. Não vejo a hora de poder ouvir o som dos nossos risos novamente. O som e os contos da nossa infância é o mais próximo que eu posso chegar daquela criança inocente que eu fui um dia.
