domingo, 28 de novembro de 2010

O conhecimento é uma viagem

O conhecimento é uma matéria viva, semeada nos livros, nas idéias, que corre pelos trilhos, estrada adentro ou pode estar no ar, como um papel jogado ao vento. Claro que o saber não tem destino certo, mas tenho certeza que pode mudar o destino de qualquer viajante, porque o aprendizado é mesmo uma viagem. Nas férias, eu e meu amigo irmão Rogério Coutinho (repórter da Globo Rio), embarcamos rumo ao Rio Grande do Sul. Em cinco anos, foi a primeira vez que desplugamos da tv juntos, na mesma data. Também foi a primeira vez que voamos nas asas da invenção de Santos Dumont. Porto Alegre foi só o ponto de aterrissagem, uma cidade mais limpa, porém, menos alegre do que eu imaginava.

Os comentários ao pé do ouvido de que os gaúchos eram mais europeus do que brasileiros, de cara, me pareceram muito precisos. Aparentemente sérios, sem caras e bocas. Mera impressão. Naquela região onde o inverno é mais rigoroso, logo descobrimos que os homens e mulheres do sul não são frios, pelo contrário, nos receberam com aquele calor humano. De lá, seguimos de ônibus para uma cidadizinha do interior do Estado, na fronteira com a Argentina, chamada São Borja. Nove horas madrugada a fora, andando quase sempre em linha reta, o que me fez compreender porque aquela região é conhecida como Pampas. Quando descemos do ônibus, já as claras, encaramos o frio típico do outono e reencontramos dois velhos amigos, Marco Bonito, um dos nossos professores na Faculdade de Jornalismo, agora lecionando na Universidade Federal de São Borja, e Cristina Fernandes, assessora de imprensa da prefeitura. Há anos a dupla e o casal não se viam. Os rostos pareciam os mesmos, só que dessa vez Marco e Cris já estavam casados.

Depois de tantos abraços, Cris teve que nos abandonar rápido para ir para o trabalho. Então, eu, Rogério e Marco embarcamos numa outra viagem, um giro pelo passado, presente e futuro. Passamos a manhã inteira atualizando a história de vida desse casal de amigos jornalistas. Depois acompanhamos o Mestre Marco Bonito até a Universidade. A intenção era participarmos da aula para fazer um bate papo com os guris e gurias, narrar o OFF da nossa experiência acadêmica e fazer uma PASSAGEM para o mercado de trabalho. Na frente daqueles alunos, de olhares desconfiados, nos pusemos a falar. Uma série de expressões e em seguida vieram as dúvidas. Naquela sala nos deparamos com um Brasil sem divisas, no meio de gaúchos, paulistas, um paraibano, um paraense, catarinense, sem conflito cultural. Todos buscando conhecer o que está por vir. No fundo da sala um xará, torcedor do internacional, perguntou sobre a imparcialidade do jornalismo esportivo. Pra quem já esteve no sul fica claro entender a pergunta. O fanatismo dos gaúchos vai muito além do que nós imaginávamos, mas impressionante mesmo é observar a visão das mulheres sobre a bola. Elas debatem como homens, não há preconceito, são conhecedoras do assunto, falam de futebol como outras brasileiras conversam sobre novela ou moda. Na classificação de torcedoras eu diria que as gaúchas lideram a tabela do brasileirão.

Voltando a pauta do dia, Marco exibiu aos alunos o nosso TCC, Trabalho de Conclusão de Curso, um documentário sobre o São Paulo Futebol Clube na era Telê Santana. Esperava ouvir todo tipo de curiosidade, só que logo de cara nos colocaram na parede. Eis que surgi uma voz no fundo da sala questionando: “Quanto vocês ganham?”. Essa é uma das perguntas mais ouvidas nas faculdades e universidades por onde passei. Todos querem saber se o futuro será bem sucedido financeiramente. Mas pra ser sincero, a tal questão me incomoda. Não por dizer o valor do meu pobre salário, o que faria de cara alguns pretendentes desistirem da profissão. Afinal, as pessoas que estão fora do universo televisivo costumam achar que quem aparece nas telinhas é rico. Mera ilusão de óptica! Como quase tudo na tv, que passa a sensação de grandeza, a realidade é diferente e distorcida pelos próprios telespectadores, claro, não por culpa deles. O que me assusta nessa indagação é que ela deveria ser a última pergunta de quem pretende ser um questionador do mundo. O jornalista é por sua natureza alguém eternamente inconformado. Sim! Uma pessoa que carrega o espírito heróico de justiça para servir os oprimidos, excluídos. Somos a voz daqueles que foram calados pelo poder, que não sabem que teto, comida, saúde, segurança são direitos garantidos pela Constituição defasada que rege essa nação de guerreiros. O foco de alguns focas me parece ofuscado. Nós lutamos pela melhoria de uma rua, os avanços de uma cidade, estado, o progresso econômico social de um País. Enfrentamos os poderes públicos, a corrupção, os bandidos. Somos a esperança de muitos que se vêem perdidos. Somos idealistas, dispostos a mudar o que aos olhos da maioria parece impossível. Então a pergunta deveria ser “Quais são as benfeitorias conquistadas com o seu trabalho?”. Aí sim!

As vezes me parece que o status da profissão atrai mais seguidores do que realmente deveria. A tv principalmente. Quantos gênios do jornalismo não tem a mesma visibilidade porque estão em revistas, jornais impressos ou na internet. Na tela, nos tornamos pessoas públicas, mas não se pode confundir as funções. Não somos artístas! Somente intermediadores, canais de divulgação para o nosso produto: a informação. É por ela que trabalhamos exaustivamente. Não há feriado, nem fins de semana, a folga está em segundo plano. A programação de vida dá lugar a questões mais importantes para população, porque respiramos a notícia. Vivemos não só por nós, mas por toda uma nação.

Então vamos lá! Quer mesmo ser um jornalista? Faça as malas, coloque todo o seu conhecimento na bagagem e embarque nessa viagem que não tem preço. Promover o bem estar social da comunidade, abrir os olhos de quem foi cegado pelo sistema, fazer com que a informação desperte a opinião pública. Nenhum dinheiro no mundo é capaz de pagar pelo resultado do nosso trabalho.

Bruno Pellegrine

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