quarta-feira, 6 de abril de 2011

O complexo da beleza


Você está num bar com os amigos, rodeado de paqueras, pessoas interessantes, mas quando menos se espera uma mulher entra no estabelecimento. Todos os olhares se voltam para ela como holofotes, inclusive, os das outras mulheres que estão no bar. A moça de olhos azuis, traços finos, com uma boca sedutora, pele morena e cabelos encaracolados parece ter sido feita a mão. As curvas dela são tão perfeitas que fazem qualquer homem se perder do caminho. Agora respondam-me, o que chama tanto a atenção nessa linda mulher? Seria sua simpatia? O bom humor? Sua inteligência? A conta bancária?
Não! É a imagem captada por um dos seus sentidos.

Ser bonito também é um dom. A aparência é capaz de despertar o interesse das pessoas, sem que ao menos uma palavra seja pronunciada. É físico! Trata-se de desejo, atração. Por muitos anos me perguntei porque não fui premiado com esse talento? O reflexo no espelho sempre deixou visível que eu estava longe de ser um galã, muito distante. Na adolescência todos meus colegas e amigos eram apaixonados pela mesma garota, a mais linda da escola. E, claro, somente um de nós poderia conquistar o sorriso daquela beldade. Com certeza não fui eu, mas um amigo que carregava com ele o feitiço da beleza. Todos os nossos sonhos de consumo tinham a mesma opinião sobre ele, o achavam um Deus Grego. Diante dele éramos simples mortais.

Uma concorrência desleal, como comparar Brad Pitt com o Predador. O mais engraçado é que o meu amigo Bonitão nunca se aproveitou de seu feitiço. Eu e os outros precisávamos nos desdobrar para fazermos as meninas rirem, impressioná-las com uma ou outra habilidade, na sala de aula, nas partidas de vôlei, só assim tínhamos chance de atrair um olhar feminino. O fato é que os mortais também sonhavam em ser um Deus Grego. Além da beleza, esse meu xará tinha outras qualidades, era educado, inteligente, determinado e romântico. Eu tive o previlégio de ter esse cara de sorte como meu melhor amigo. E apesar de inspirar tantos desejos, de poder possuir a menina que quisesse, ele nunca se deixou levar pela beleza delas. Para ser sincero muitas das meninas que intermediei para o galã nem eram atraentes fisicamente, mas tinham uma beleza incomparável dentro delas.

O Deus Grego deu uma lição a esse simples mortal. Quando vamos ao supermercado encontramos uma variedade de marcas de um mesmo produto. O que mais chama a atenção se não a embalagem da mercadoria. Uma boa embalagem, bem produzida, consegue seduzir qualquer consumidor. Mas é o conteúdo que ela carrega o mais importante para quem está comprando. A embalagem é descartável, como a beleza. É assim que meu amigo Deus ensinou-me a ver as pessoas e entender que eu não era feio, tratava-se apenas de um ponto de vista. Pena que ele faz parte de uma minoria.

Em compensação tenho outro camarada que fazia da beleza feminina o seu objeto de conquista. E ele não é bonito, longe disso. Só que durante muitos anos persistiu em um erro absoluto, trancou o coração e focou seus olhos apenas na bela matéria que um dia perderá o encanto para o tempo. Isso lhe custou caro. Noites de sono perdidas, rosto lavado por tristeza e um imenso vazio que, finalmente, foi preenchido por uma mulher atraente e de uma beleza interior engrandecedora. Acho que, hoje, ele enxerga as pessoas como aquele Deus Grego.

O universo se transforma, as pessoas e os conceitos que giram em torno dele também. Quando a mulher de olhos azuis, traços finos, com uma boca sedutora, pele morena e cabelos encaracolados cruzar os nossos olhos, eles não vão resitir a lei da atração. Mas não se esqueça de olhar a sua volta, porque ali, ao seu lado, pode estar uma garota que é apaixonada pela sua maneira de ser, de conquistar o mundo, não pela sua imagem. Essa beleza interior nunca será vencida pelos anos. Assim, qualquer um de nós terá o privilégio de se sentir um Deus Grego.


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