terça-feira, 28 de junho de 2011

Só é feliz quem tem

Esse é o tipo de coisa que não se compra, pelo menos original não. É como semear a terra, cuidar da horta, atenciosamente, para que o tempo se encarregue de fazer brotar os frutos. Nós somos como sementes espalhadas pelo planeta, prontas para serem cultivadas. Mas eu falo de uma coisa que não nasce da terra, que não pode ser colhida no pé das árvores. Mesmo porque se assim fosse ela se tornaria descartável. Não! Para conseguir uma é preciso conquista-lá.


Com ela descobrimos o prazer de servir, de olhar o mundo pelos olhos do outro, de ceder, de escutar mais e falar menos, de pedir desculpas, perder o orgulho, compartilhar a vida, sentir saudade, se emocionar. Infeliz daquele que não tem uma amizade sincera. Todos temos colegas  e conhecidos aos montes, mas amigos não. Eles são raros! Pessoas que ajudam a dar sentido a nossa passagem pela terra. Conselheiros por instinto, guardiões dos nossos segredos mais obscuros.


Eles vão e vem, mas nós os levamos para sempre conosco, ainda que nas lembranças. Nenhuma distância no mundo é capaz de separá-los de nós, estejam eles aqui ou na (H)Espanha. O amigo pode ser um primo, de uma cidadezinha do interior, chamada Jaborandi. Mas também tem aquele amigo vizinho, criado com você desde pequeno, como um irmão, um corintiano fanático de olhos arregalados apelidado de "aquático". Gudu da lua, Lucas Boy, Fusquinha, Xingu, Alemão, Banguelo, um time de salão completo de apelidos estranhos mas muito familiares entre amigos.


No esporte, nem sempre eles se entendem, mas levam tudo na esportiva. Formam uma dupla inseparável nas quadras, de xarás, unidos pelo vôlei. Um é grande por natureza e o outro mais baixo, porém, capaz de alcançar o mundo quando estão juntos. 


Tem o amigo técnico, paisão, professor, que te vê como um filho. E tem também aquele camarada que te vê como um pai.


O bom amigo está sempre pronto pra te defender, como um advogado, cheio de argumentos, de sorriso "mar(i)oto". Se te atacam ele banca o zagueiro e afasta o perigo. 


E sempre tem o amigo "pato", de uma habilidade incrível nos campos e no jogo da vida, que veste a sua camisa, nunca abandona o time.


Tem amigo que mais parece um personagem, cheio de histórias, de resenha, pronto para transformar a realidade em comédia. Ele pode ser um multimídia, conectado a você por meio das tecnologias: twitter, face, orkut, msn. Amigo jornalista, disposto a investigar a sua vida com o lead na ponta da língua: quem? o quê? quando? onde? como? por quê? 


Às vezes ele até passa dos limites, quer roteirizar o seu futuro, como um diretor de novelas, de sobrenome Capucho.


Amigo é sempre "guerre(i)ro",  disposto a transformar a tristeza em uma doce canção. 


Não há diferenças numa amizade verdadeira, porque nesse caso elas se completam numa mistura perfeita, equilibrada, como o "café com leite". Um vive no Rio o outro em Sampa, e mesmo longe os dois não conseguem se separar. 


O nosso imenso Brasil fica pequeno pra eles. Cruzeiro, Guaratinguetá, Taubaté, São José dos Campos, São Paulo, Campinas, Rio Grande do Sul, aonde quer que eles estejam, seja o amigo empresário, bancário, engenheiro, dentista, fisioterapeuta, quando se encontram são apenas amigos, trabalhando um sentimento que os torna mais humanos.


Tem o amigo metalúrgico, esse produz discursos tão sinceros que vez ou outra acaba fabricando conflitos, vendendo a imagem errada dos companheiros.


O amigo também pode ser ela. Quem disse que não há amizade sincera entre sexos opostos. Ela pode ser uma atriz interpretando suas confidências, uma jornalista tentando fazer você entender os fatos ou a psicóloga que vira e mexe te salva da depressão.


Amigos são como irmãos, parte da família. Pessoas enviadas por um camarada lá do céu. Demora a brotar, mas quando nasce uma amizade ela fica enraizada para sempre na alma. 


Por último, lembremos do amigo traíra.  Aquele que bate nas suas costas com as garras de um gavião. Esse é filho da outra, rouba teu brilho, te põe em conflito e ainda tem a cara de pau de dizer que não sabia de nada, que não tinha a intenção. Para esse tipo não há palavras, basta o silêncio. Sabe por quê? Porque o traíra já tem uma fiel companheira, a solidão.  Ele nunca vai entender que a amizade tem sim o seu preço e custa caro para quem não tem o coração livre para amar.

sexta-feira, 3 de junho de 2011

O caipira da cidade e o coroné

Abre a porteira
Pra eu “caba” de “chega”
Levantando poeira

Com meu coração a galope
Venho reencontrar a casinha pequenina
Da minha família caipira

Até a cidade me laçar
A roça era o meu lar
No lombo do cavalo
Abrindo “tria” pelo mato
Mergulhado "nus riacho”

Foi assim que eu me criei
E matuto madurei
Plantei puro amor no coração
Depois eu me mudei

Deixei pra trás o meu sertão
Com a benção dos meus pais
E o abraço apertado dos irmãos

Segui sem rumo
Mas “vortei rumado”
Agora, o menino do mato
Virou empresário

Mãe, irmãos
Finalmente eu venci
Mas cadê o pai aqui

Lá no monte descampado
“Vistei” uma cruz de sarrafo
Aquela terra cheia de vida
Foi transformada em cemitério da “famía”

Com o “zóio” enxarcado
Procurei explicação
E vim sabe por minha mãe e os irmãos
Que um coroné tinha matado o meu herói, seo João

Fui atrás daquele "mardito"
Um sujeito muito temido
Rico e sabido

No meio da estrada me pus a esperar
E quando o coroné apontou entre a poeira
Meu coração disparou a galopar

Chegou a hora da vingança
Com o dedo no gatilho
Apontei o "revorve pro mardito"

O coroné me encarou sereno
E eu atirei sem medo
Veio o estampido
E logo o chão batido ficou "vermeio"

No leito da morte o coroné me chamou
E sussurou no meu ouvido
Seu pai não morreu
O João que "ocê" conheceu
Era um "véio" amigo meu
Um traidor
Que roubou o meu amor
Levou sua mãe pra longe "deu"
E o meu "fio" no ventre seu

Mas, “finarmente", "ocê” veio a mim
Trazido pelo destino que assim quis
Não se preocupe meu “fio”
Que eu já “vô partino"
Levando comigo um amor infinito "docê"