domingo, 12 de agosto de 2012

Carta ao pai

 
Eu não sei o que ele sonhava para minha vida, nem lembro se na minha chegada ele estava lá. Não sei se minha vinda provocou uma emoção tão maior do que aquelas que esse homem já havia experimentado. Do meu início guardo vagas memórias, mas aquele rapaz está nitidamente entre elas. Vinte poucos anos, era a idade dele quando nos conhecemos por uma vontade do destino. Naquele dia chorei como criança e aquele cara, a princípio estranho e ao mesmo tempo muito familiar, apareceu para acolher-me.

Foi ele que mostrou o caminho e me fez caminhar. Passo a passo eu segui o seu olhar, o seu chamado. Naquela época, eu ainda não sabia definir os sentidos e sentimentos do mundo, mas já tinha crente comigo que ele, além dos anjos e meu guia, era o meu protetor. Aquele homem me fez crescer, deu-me o pão e o vinho, alimentou meus desejos e me deu de presente uma boa educação.

O trabalho, por vezes, o consumia e me roubava aquele sorriso tímido de te-lo mais perto das minhas brincadeiras. Com ele descobri que nem sempre o universo é justo, que nem toda ação positiva é suficiente para gerar uma reação benéfica. Vi aquele homem trabalhador ser apunhalado pelas costas. Noites de sonos perdidas, mais cabelos brancos espalhados pela sua inteligência emocional, ansiedade, toda sua dedicação acabou dispensada pela política dos incompentes que lhe arrancaram o emprego. Como bom amigo, uma de minhas poucas qualidades, eu lhe estendi as mãos para entregar o que estava a meu alcance. A mensagem simples de apoio, escrita no estilo guarrancho, com o desenho do afeto, molhou o rosto dele como jamais havia presenciado na minha existência.

Superação! Como um atleta, ele se preparou, canalizou suas energias em novas metas, fez acontecer. Depois de tantos esfoços, acompanhei aquele homem se tornar um patrão com uma simplicidade sem igual. A minha única certeza era de que nunca me curvaria aos patronos que lhe sugaram o sangue. Nesse período, nossas estaturas já estavam niveladas, o futuro chegou mais rápido do que eu imaginava. A vontade dele injetou em minhas veias o desafio também de ir além. Aos dezessete anos tornei-me um locutor de rádio. Ele me incentivou, financiou meu sonho e participou efetivamente das minhas conquistas.

Compartilhávamos idéias, sorríamos juntos, imaginávamos o que nos aguardava. Estávamos mais conectados, mas nem sempre o meu pensamento rebelde era compreendido. Se pudesse voltar no tempo, apagaria a discussão fervorosa que tivemos, em que os músculos se exaltaram. Jovem juvenil, não recordo o motivo injustificavel que me levou a afronta-lo. Que Deus me perdoe, que meu espelho de vida possa refletir o seu perdão. Nunca mais tocamos nesse assunto, mas vez ou outra aquele momento perturba minha mente. Por outro lado, nunca trouxe aborrecimentos graves para esse homem. Nunca faltei com a honra que me concedeu. Mas confesso que jamais serei tão querido, respeitado, aguerrido como ele.

Entre essas recordações, existe um certo vazio lá da infância. Queria ter jogado mais bola com ele, nadado, corrido, escalado montanhas, caminhado mais sem me preocupar com as horas. Colocado a mochila nas costas e percorrido os lugares mais longínquos. Queria que juntos tivéssemos desbravado os mistérios que nos colocaram em dúvida. Queria ter registrado centenas de fotografias com o nascer e o pôr do sol de plano de fundo. Só queria ter passado mais horas ao lado dele. Eu só queria mais e mais. Graças a Deus esse homem ainda está aqui, comigo, superando o destino, ajudando-me a seguir em frente, orientando-me. Obrigado senhor!

Engraçado que esse homem tão sábio nunca teve muito jeito para lidar com os sentimentos. O aperto de mãos e o abraço tímido ainda são os gestos mais próximos de uma palavra que nos preenche a alma. Mas quando encontro velhos e novos amigos circulando pelas ruas de minha cidade natal, ouço o que pouco escuto da boca dele. As pessoas me dizem que esse é um homem espetácular e que tem orgulho do filho, que expressa no sorriso e nos olhos o amor que eu sei que ele tem por esse menino. Algumas palavras não precisam ser ditas, elas ecoam em atitudes, se espalham pelo vento, navegam no balanço das águas.

O meu maior desejo é dar a ele o mundo, mas o máximo que posso lhe oferecer, hoje, é minha vida. Eu sou a extensão desse homem e espero que um dia também possa ser um pai como ele.

domingo, 29 de julho de 2012

Amor não é coração, é alma!



Quatro letras apenas que, unidas, podem trazer o céu para terra. Descrever um sentimento tão maior , do qual a ciência não é capaz de explicar, de traduzir em fórmulas, é a tarefa mais complexa de uma vida inteira. Esqueça a razão! Amigos e uma mulher em especial, a da minha vida, dizem que sou contraditório por conseguir decifrar as sensações que estão a nossa volta e, no dia a dia, não demonstrar ao mundo o que sinto pelas pessoas que amo.

Mas, afinal, o que é o amor? Essa palavra tão intensa, profunda, tem um significado relativo para cada um de nós. Para algumas meninas seria um conto de fadas, daqueles em que o príncipe cavalga em seu cavalo branco, com os cabelos loiros jogados ao vento, de sorriso sedutor, palavras meigas, o homem herói. E fora do universo imaginário? Qual seria a melhor definição?

Entenda que o amor não tem cara, mas tem várias expressões, não está no coração, mas é capaz de acelera-lo, porque pulsa na alma. Pode, simplesmente, ser um beijo duradouro, em que bocas suculentas trocam energia. Ou quem sabe um sorriso interminável, aquele friozinho
 na barriga, o arrepio, o ciúmes, um rosto molhado pelo sofrimento. Mas não pode ser simbolizado pelo vermelho porque é muito mais colorido. Outros acreditam que a resposta está no olhar, em enxergar o interior das pessoas. Por vezes, tento passar o que guardo aqui dentro, assim, observando atentamente os gestos, o riso, a beleza dos seres que me fazem ter o prazer de viver. Seria o bastante?

Depois de três décadas, meu coração já não é tão duro, o tempo, os erros, as feridas trataram de amolece-lo. Mas essas mudanças que me tornaram uma pessoa melhor ou menos pior, nem sempre são suficientes para quem as recebe. Existem muitas formas de amar, só que nem tudo é amor. Ouço homens e mulheres pronunciarem essa palavra com a boca e não com a alma, sem se darem conta do que ela realmente representa.

Não se joga um sentimento desse ao acaso, ele não pode ser descartado como um papel em branco. Vejo casais que mal se conheceram pronunciarem essa palavra mágica. Mas grande parte dos amantes não se da conta do poder dela. Colocam pra fora essas vogais e consoantes de maneira separada, soletrando, a – m – o – r. Esquecem que somente juntas elas permitem unir as pessoas. Talvez isso tenha diminuído
 a magia do amor. Fácil falar, difícil fazer.

Ainda bem que temos a chance de renovar. Quem disse que o amor não é reciclável? Escuto muita gente profetizar que só é possível amar uma vez na nossa breve história. Não! O amor é eterno, levamos para sempre, mas nem sempre a pessoa amada é única em toda a nossa vida.

Certa vez, uma menina me disse acreditar no impossível conto de fadas. Para ela, o príncipe encantado é uma realidade. Essa mulher que tem a inocência e sensibilidade de menina, carrega o amor dentro dela. Compartilha sua luz com o próximo e transcende
 a lei da física. Ela exerce a humanização todos os dias e me ensinou muito mais do que a escola, os cursos técnicos e a faculdade. A menina de olhos caramelos, tão doce, pratica intensamente o significado dessa palavra. Foi esse anjo fantasiado de mulher que me ensinou sobre a paixão, o gostar e, por último, o amor.

Esqueça os romances dos escritores, as rimas dos poetas, os enredos de novelas. O amor verdadeiro é radicalmente melhor do que tudo que se possa ver, ouvir ou escrever. E é simples entender
. Você tem fé? Já viu Deus pessoalmente? O que sente por ele? É isso! O sentir está muito além de nossa compreensão. Não se vê, não se toca, não é possível dimensionar, medir, impedir, esquecer.

As vezes, a tristeza não consegue inundar os meus olhos, mas o meu rosto é encharcado
 com um belo sorriso. As emoções geram o amor ou o amor gera as emoções? Um texto ou dezenas de páginas de um livro, não podem descrever o que é divino.
“Quem inventou o amor? Explica, por favor!” (Renato Russo) 

sexta-feira, 13 de julho de 2012

No Carnaval do futuro a minha fantasia é retrô



Fevereiro! Esse me parece ser o mês mais esperado do ano. Passamos trezentos e sessenta e um dias desejando apenas quatro deles. É essa a minha sensação quando chega o Carnaval. Tudo vira festa, extravasamos os sentimentos sem nos preocuparmos com o dia de amanhã, como se o mundo fosse acabar. A única coisa realmente pura nessa data é a inocência das crianças, brincando de faz de conta. Já grande parte dos jovens e adultos exalam sacanagem.

Os homens e mulheres parecem sedentos por sexo, estão a flor da pele, como os animais no período  do acasalamento, porém, sem o romantismo deles. O Carnaval é um grande evento gastronômico. Os homens, os mais animalescos por instinto, estão prontos para experimentarem o que for servido a mesa. Já as mulheres, loucas para serem saboreadas com tudo o que tem direito.

No Brasil, a sacanagem do Carnaval até parece um desses dias sagrados. Quem não cumpri o ritual é o Judas da história. É como se Deus nos desse a bênção para cometer os pecados mais carnais. Um festival de palavrões, drogas a vontade, pessoas desfilando pelas ruas quase peladas, casais se devorando em praça pública.

O mais incrível é que homens e mulheres se beijam ardentemente sem trocarem uma palavra. Bêbados, eles cercam o sexo frágil como presas, as agarram e impõem seus desejos, como na época das cavernas. E o pior é que elas se rendem e gostam do imperialismo masculino. Porque na cabeça de grande parte dos brasileiros, o Carnaval é a época de liberar as fantasias, de se entregar ao prazer.

Uma, duas, três, quatro, quanto mais bocas passarem pela sua melhor é o seu desempenho, isso virou regra no dia profano. E não pensem que falo isso como um santo, porque nunca fui e nem tenho a pretensão, mas aos 30 anos algumas coisas mudaram na minha maneira de ver a vida. Qual é o prazer de beijar por beijar, sem aos menos saber o nome dela ou dele, de onde essas bocas sedentas vieram, que histórias elas tem pra contar, suas perspectivas para o futuro.

Esse ano vi de perto o Carnaval de rua. Algumas pessoas estariam menos vulgares se estivessem peladas, não me levem a mal. Os garotões parados no meio das vias públicas aguardavam sua caça. E elas vinham aos montes, sem se preocuparem com o risco de serem roubadas. Porque aquela cena mas parecia um assalto consentido. Ele se apoderando do corpo dela e ela dizendo não com uma ânsia indescritível de ser violada. Então, quem é o mocinho e quem é o vilão?

O Carnaval virou a festa do sexo, não que eu tenha alguma coisa contra sexo, é a melhor coisa do mundo. Só que a pornografia exibida em filmes como “Brasileirinhas” se apresenta em praça pública agora. Na minha época de adolescente, eu demorava pelo menos dois dias para conseguir beijar a boca da menina que me atraia entre as serpentinas e confetes. Nos dias de hoje, diriam que sou um frouxo, careta. Pois bem, como disse, não sou nenhum santo, jamais fui, mas ainda não tenho apetite para beijar por beijar, de somar por somar, sem aquela troca de olhares que mexe com a minha cabeça de cima. Se esse é o Carnaval do futuro, prefiro vestir aquela fantasia retrô da minha adolescência.




domingo, 26 de fevereiro de 2012

Recomeçar e ponto final



Será que tudo tem um ponto final? Os livros mais consagrados, por maior que sejam seus volumes, chegam a uma última página, uma última linha. Quantas coisas construímos com o tempo e, antes mesmo de nos darmos conta, elas desaparecem como a poeira no vento. O fim da vida é a morte, tragédia ou poesia? Isso depende de como entendemos a nossa existência.



Há um prazo determinado para nós. O prazer sexual dura alguns minutos, a gestação leva nove meses, a criança nasce, se torna adolescente, evolui para a fase adulta e, se cumprir o ciclo natural da lei do planeta, vai envelhecer até o seu último suspiro. Estamos preocupados apenas em viver, por isso não percebemos que o mundo que nos cerca pode simplesmente acabar. E é assim que deve ser, ou passaríamos os dias agonizando as hipóteses do Todo Poderoso.



A formatura encerra o período escolar. Em alguns anos o curso superior é concluído. O emprego no fim das contas vai virar aposentadoria. O dinheiro da previdência é curto e vai acabar antes que o mês termine. Uma hora a paciência se esgota, a vontade se cansa, o desejo desaparece, a luz se apaga e tudo se vai. Os rostos dos meus avós e outras pessoas queridas viraram lembranças. Mas essa é uma perda natural, inevitável.



Só que nem tudo precisa acabar como acabou. Quantas pessoas você já perdeu? As amizades que por um motivo idiota foram finalizadas com palavras afiadas, que feriram pra sempre o sentimento mais humano que temos. Quantos irmãos perdem os laços motivados pela ignorância dos conflitos familiares. Quantos pais e filhos interromperam a divina harmonia da união. Nesses casos ainda cabe uma vírgula, impedida pelo orgulho.



Nas relações amorosas, bocas que se beijaram intensamente no passado, hoje, não se falam. O homem e a mulher que se fundiram em uma única paixão foram divididos, voltaram a ser dois. Os anos de história do casal, agora, se resumem a memória. E se a felicidade tem fim, o sofrimento, muitas vezes, é uma prisão perpétua. Mas a fonte do amor incondicional não seca jamais: pai, mãe, irmãos, ou ainda o amado ou a amada.



O livre arbítrio de Deus faz de nós os diretores da obra “vida”. Podemos escrever do jeito que quisermos. Então coloque mais vírgulas, reticências, dois pontos no seu roteiro. Pontue menos e acentue mais a beleza e o poder da existência. O adeus, lá na frente, pode ser o recomeço. E todo dia é dia de recomeçar, ponto final!

domingo, 1 de janeiro de 2012

Vida Nova


Sonhe! De olhos abertos ou fechados, sonhe!
Desistir de sonhar é o maior ato de covardia que você pode cometer.
Mas cuidado pra não passar seus anos aqui na terra apenas sonhando, sem realizar nada.

Um dia na semana acorde bem cedo para ver o sol despertar.
Deixe-o iluminar o teu rosto, aquecer sua áura.

Ouça o canto dos pássaros, deslumbre as paisagens e desfrute a natureza.

Caminhe sem ter onde chegar, apenas por caminhar.

Ande pelo campo, sob a grama, lá onde a terra encontra o céu.

Não maltrate os animais.
Eles também são seres divinos e no fim das contas você é, potencialmente, o animal mais cruel e perigoso do planeta.

Esteja certo de que o contato com a natureza também é uma ligação com Deus.

Mas pelo menos uma vez por mês vá até a igreja quando ela estiver vazia.
Deixe o silêncio tocar sua alma.
É a melhor maneira de conversar com Deus em particular.
Ou se preferir não vá até a igreja, porque o verdadeiro templo está dentro de você.

Vá até o pico mais alto que encontrar e grite para o mundo inteiro ouvir tudo aquilo que ficou engasgado.

Reclame menos, tenha mais atitude.

Entenda que por mais dedicado que você seja no trabalho, infelizmente, será sempre sua obrigação.
Não espere elogios ou agradecimentos do seu chefe.
Mas cuidado com as falhas, elas sim serão muito valorizadas.
Por vezes irá se sentir injustiçado ao perceber que a política de relação, de interesses, está acima da competência.

Acerte o máximo que puder, mas saiba que os erros são inevitáveis para você crescer na vida.

Encontre sempre um recomeço no que a princípio parece ser o fim.

Quando se deparar com uma grande barreira pela frente escale-a.
Esse é o grande desafio e supera-lo será sua vitória.

Quando tomar uma decisão não olhe pra trás, siga adiante.
E se perceber que o caminho tomado foi um erro, escolha outro, é assim pra todo mundo.

Deixe o passado onde está. Viva o presente, as ações de hoje é que vão decidir o amanhã.

Não se preocupe com o que vão pensar de você, como irão julga-lo.
Preocupe-se apenas com a opinião de quem, realmente, te quer bem.

Perca mais tempo com as pessoas e menos com as tecnologias.
Desconecte-se, viva a realidade.
É isso que te faz humano, caso contrário, vai se tornar uma máquina, mecanizado pelo sistema.

Abrace muito mais pessoas, estenda mais suas mãos ao próximo.

Ajude quem caiu a se levantar. Não finja que você não viu o tropeço do outro.

Encontre os amigos sempre que puder para celebrar a amizade.

Observe o sorriso, o jeito, a expressão daqueles que você ama.
Somente esses gestos serão suficientes para te fazer feliz.

Não caia na rotina. Faça do seu dia a dia um passeio.

Aventure-se.

Faça uma seleção de músicas, grave num cd, coloque no aparelho de som do seu carro e dirija.
Viage sem pressa de voltar.
Deixe que o destino te leve onde você jamais sonhou estar.

Tire os pés do chão, flutue pelas águas do oceano, voe para outros ares.

O conhecimento também é uma viagem.

No meio da noite, quando perder o sono, escreva uma carta pra quem mais te traz saudade.
A nostalgia é capaz de revitalizar.

Sinta as coisas simples da vida.
Tome uma chuva de verão, deixe a água que cai do céu limpar os maus fluídos e te encher de pureza.
Pise descalço no barro.
Brinque como criança.
De bom dia a todos.
Festeje mesmo sem motivos para tanto.
Desacelere, de um passo de cada vez, o mundo é grande demais para ser conquistado da noite pro dia.
Namore, case, tenha filhos, mas se o amor acabar seja sincero com você e a mulher dos seus filhos.
Os dois tem o direito de serem felizes.
Tenha pelo menos um cachorro.
Dificilmente o cão irá trair sua amizade e jamais vai exigir alguma coisa em troca, além de carinho.
Cuide dos seus pais como eles cuidaram de você.
Diga que ama quantas vezes achar necessário.
E se conseguir tudo isso, por favor, me ensine.

Feliz 2012