Eu não sei o que ele sonhava para minha vida, nem lembro se na minha chegada ele estava lá. Não sei se minha vinda provocou uma emoção tão maior do que aquelas que esse homem já havia experimentado. Do meu início guardo vagas memórias, mas aquele rapaz está nitidamente entre elas. Vinte poucos anos, era a idade dele quando nos conhecemos por uma vontade do destino. Naquele dia chorei como criança e aquele cara, a princípio estranho e ao mesmo tempo muito familiar, apareceu para acolher-me.
Foi ele que mostrou o caminho e me fez caminhar. Passo a passo eu segui o seu olhar, o seu chamado. Naquela época, eu ainda não sabia definir os sentidos e sentimentos do mundo, mas já tinha crente comigo que ele, além dos anjos e meu guia, era o meu protetor. Aquele homem me fez crescer, deu-me o pão e o vinho, alimentou meus desejos e me deu de presente uma boa educação.
O trabalho, por vezes, o consumia e me roubava aquele sorriso tímido de te-lo mais perto das minhas brincadeiras. Com ele descobri que nem sempre o universo é justo, que nem toda ação positiva é suficiente para gerar uma reação benéfica. Vi aquele homem trabalhador ser apunhalado pelas costas. Noites de sonos perdidas, mais cabelos brancos espalhados pela sua inteligência emocional, ansiedade, toda sua dedicação acabou dispensada pela política dos incompentes que lhe arrancaram o emprego. Como bom amigo, uma de minhas poucas qualidades, eu lhe estendi as mãos para entregar o que estava a meu alcance. A mensagem simples de apoio, escrita no estilo guarrancho, com o desenho do afeto, molhou o rosto dele como jamais havia presenciado na minha existência.
Superação! Como um atleta, ele se preparou, canalizou suas energias em novas metas, fez acontecer. Depois de tantos esfoços, acompanhei aquele homem se tornar um patrão com uma simplicidade sem igual. A minha única certeza era de que nunca me curvaria aos patronos que lhe sugaram o sangue. Nesse período, nossas estaturas já estavam niveladas, o futuro chegou mais rápido do que eu imaginava. A vontade dele injetou em minhas veias o desafio também de ir além. Aos dezessete anos tornei-me um locutor de rádio. Ele me incentivou, financiou meu sonho e participou efetivamente das minhas conquistas.
Compartilhávamos idéias, sorríamos juntos, imaginávamos o que nos aguardava. Estávamos mais conectados, mas nem sempre o meu pensamento rebelde era compreendido. Se pudesse voltar no tempo, apagaria a discussão fervorosa que tivemos, em que os músculos se exaltaram. Jovem juvenil, não recordo o motivo injustificavel que me levou a afronta-lo. Que Deus me perdoe, que meu espelho de vida possa refletir o seu perdão. Nunca mais tocamos nesse assunto, mas vez ou outra aquele momento perturba minha mente. Por outro lado, nunca trouxe aborrecimentos graves para esse homem. Nunca faltei com a honra que me concedeu. Mas confesso que jamais serei tão querido, respeitado, aguerrido como ele.
Entre essas recordações, existe um certo vazio lá da infância. Queria ter jogado mais bola com ele, nadado, corrido, escalado montanhas, caminhado mais sem me preocupar com as horas. Colocado a mochila nas costas e percorrido os lugares mais longínquos. Queria que juntos tivéssemos desbravado os mistérios que nos colocaram em dúvida. Queria ter registrado centenas de fotografias com o nascer e o pôr do sol de plano de fundo. Só queria ter passado mais horas ao lado dele. Eu só queria mais e mais. Graças a Deus esse homem ainda está aqui, comigo, superando o destino, ajudando-me a seguir em frente, orientando-me. Obrigado senhor!
Engraçado que esse homem tão sábio nunca teve muito jeito para lidar com os sentimentos. O aperto de mãos e o abraço tímido ainda são os gestos mais próximos de uma palavra que nos preenche a alma. Mas quando encontro velhos e novos amigos circulando pelas ruas de minha cidade natal, ouço o que pouco escuto da boca dele. As pessoas me dizem que esse é um homem espetácular e que tem orgulho do filho, que expressa no sorriso e nos olhos o amor que eu sei que ele tem por esse menino. Algumas palavras não precisam ser ditas, elas ecoam em atitudes, se espalham pelo vento, navegam no balanço das águas.
O meu maior desejo é dar a ele o mundo, mas o máximo que posso lhe oferecer, hoje, é minha vida. Eu sou a extensão desse homem e espero que um dia também possa ser um pai como ele.
Sensacional!!!!!!!!!!!!!!!! Adorei!!!!!!!!!!!!!!!!!!
ResponderEliminarParabéns!!! Lindo texto!! o melhor não é ouvir e sim sentir o AMOR, CARINHO.. que talvez por eles sejam tão difícil de se expor!!
ResponderEliminarLindo!
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